Imagem: Golconde, René Magritte, 1953

«O valor da arte, como o da Via Mística, está nos seus efeitos. Se apenas dá prazer, por mais espiritual que o prazer seja, isso não tem grandes consequências, pelo menos maiores consequências que uma dúzia de ostras e uma garrafa de Montrachet. Se é uma consolação, ainda está bem; o Mundo está cheio de males inevitáveis e é bom que o homem disponha de algum retiro onde possa isolar-se de vez em quando; mas não para escapar-lhes, e antes para reunir novas forças a fim de os enfrentar. Porque a arte, se tem de ser considerada como um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade. O valor da arte não é a beleza, mas a acção justa.»


«Exame de Consciência», William Somerset Maugham.


terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Da criatividade e da moral


«A imaginação do Homem é o jardim de Deus. Não deixes o diabo entrar e brincar nele.»

- Do filme Nove, em cartaz.



segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Poema das Sete Faces


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade.

domingo, 31 de Janeiro de 2010

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sábado, 30 de Janeiro de 2010

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sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

A Mão Visível em Janeiro de 2010



Peter Paul Rubens, Caritas Romana, 1606


quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Um Adeus a J.D. Salinger (1919-2009)

    Acabo de saber da morte, aos 91 anos e ao que parece de causa natural, de Jerome David Salinger (1 de Janeiro de 1919 - 27 de Janeiro de 2009). E proponho-me por isso a escrever de improviso um epitáfio pessoal de um dos escritores mais interessantes, pessoais e originais que já li e também um dos mais significativos da literatura americana de todo o século XX.
    Li Salinger pela primeira vez apenas o ano passado, mal sabia eu que nas vésperas da sua morte, e a experiência foi marcante. 2009 foi o meu Ano Salinger, sem dúvida o escritor que mais me poderoso que li nos últimos tempos. Comecei pelo Franny and Zooey, continuei com as Nine Stories e acabei com o Catcher in the Rye. Tive, em Franny and Zoey, o indescritível espanto e horror de encontrar a primeira personagem que considero quase igual a mim  (ou, pelo menos, para parafrasear Pessoa sobre Bernardo Soares, um "eu" sonolento, isto é, com as faculdades de raciocínio e afectividade diminuídas) - refiro-me a Zooey.  Abstenho-me portanto, por imperativo de cavalheiresco decoro, de o descrever, mas não deixo de recomendar a leitura desse livro magistral, bem como, já agora, de todos os outros.
    Um dos grandes méritos de Salinger prende-se, quanto a mim, na ênfase que coloca não na narração de acções dramáticas concretas e tangíveis do mundo exterior que nos cerca e nos comove (uma discussão violenta, uma morte inesperada, um suicídio trágico, um desentendimento amoroso, uma traição imperdoável, um pedido de casamento, etc...), mas na descrição aparente de não-acções: parece que nada se vai passando enquanto vivemos esquizofrenicamente no mundo íntimo das personagens. Não me interpretem mal: há na obra de Salinger (refiro-me, obviamente, apenas ao que li) muita coisa disto tudo, mas tudo se passa de maneira tão interiorizada, subtil; tudo é narrado e descrito com um ritmo e um estilo tão energéticos e que tão vigorosamente entretêm, que de reprente somos confrontados, como se de uma surpresa se tratasse, com uma discussão, uma morte, um suicídio, um desentendimento, etc... E depois apercebemo-nos que caminhámos todo esse percurso lado a lado com a personagem, cumplicemente. Ficamos estarrecidos por não nos termos apercebido do que era tão evidente, do que estava lá à vista de todos, do que aí vinha. Com o facto de o desfecho não poder ser senão aquele, aparentemente tão estranho, e  nós leitores,  somos dessa forma inaceitavelmente levados a partilhar das personagens  o destino, quase como se tivéssemos culpa. Perguntamo-nos como foi possível que não tivéssemos visto, que não nos tenhamos apercebido, de que modo tão ingénuo deixámos que nos conduzissem até ao ponto em que parece impossível que tenhamos chegado e ao qual, no entanto, e sem margem para dúvidas, nos encontramos. E a isto tudo eu respondo: estávamos demasiado entretidos, estávamos a gozar demasiado a coisa, a personagem, a situação; estávamos de tal modo por dentro de tudo que, paradoxalmente, nos alheámos. Distraímo-nos absortamente e tornámo-nos ausentes e fomos andando para a frente sem darmos por isso. Tanto que não pudemos ou não quisémos ver o que aí vinha. Não sei que artes mágicas são estas, mas isto não acontece por acaso. Salinger sabe como brincar com o leitor.
    Outro aspecto importante do universo ficcional de Salinger é a irracionalidade aparente dos comportamentos das suas personagens, que desesperariam qualquer déspota totalitário ou arquitecto socialista de organização de padrões sociais e comando de comportamentos. E desse modo esdrúxulo, mas marcante, Salinger deve considerar-se como um ícone da liberdade: da liberdade de acção, de erro, e até de destruição... em suma, liberdade de todos nós para fazermos o que nos der na real gana em relação a nós próprios. Claro que o resultado previsível e frequente dessa premissa é a inevitabilidade de uma auto-destruição, real ou metafórica, de uma perda, de um desenraizamento. Mas há também uma beleza trágica, uma catarse triste, um último recurso nesse extremo de liberdade niilista que é muitas vezes o único caminho para uma reflexão profunda sobre o destino que escolhemos ou que a vida escolheu por nós.
    Ora isto pode ser muito mal interpretado: é por exemplo sabido que o assassino de John Lennon (que não vou nomear, respeitando assim o inteligente pedido de Yoko Ono para que a posteridade o não faça, castigando-o desse modo com a negação da notoriedade que visou alcançar com o seu acto infame) tinha The Catcher in the Rye  por livro favorito,  chegando mesmo a conseguir um autógrafo assinado do autor justamente na manhã em que cometeu o crime. Naturalmente que ao longo do tempo muita gente tem tendado de diversas formas associar causalmente a leitura do livro com esses ímpetos assassinos. Por minha parte, creio que a literatura de Salinger tem tanto a ver com as razões de um assassino quanto o gosto pelo cinema com as de um racista, ou a música clássica com um pedófilo. O mundo está cheio de loucos e depravados e, surpresa das surpresas, sempre esteve. Caim não precisou de ir ao cinema  ou de ler Saramago pela pensar em matar alguém, ao contrário, talvez, de muita gente...
    O que Salinger mostrava era tão somente que as pessoas não agem como devem, porque ísto ou aquilo é esperado delas ou porque a razão dita que é assim que se faz. Pelo menos não agem sempre assim. Muitas vezes as pessoas agem assim  porque assim agem. Não porque devem ou não devem. Mas porque sim. Porque lhes apeteceu, porque lhes pareceu bem. Sem saber porquê. E esta importância dos motivos irracionais ou de razão oculta a raiar o absurdo é um dos traços mais poderosos da arte de Salinger, que a este respeito muito foi beber a Dostoievsky. É também uma das verdades mais pungentes do nosso mundo, cujos dramas interiores espelhou como ninguém. Mas isso não faz de todos nós assassinos. Torna-nos apenas, talvez apenas um pouco menos cegos e certamente muito mais lúcidos em relação ao mundo e a nós mesmos. 
    Salinger foi ainda um mestre consumado do diálogo, que, talvez como nenhum outro escritor em língua inglesa do século XX, contribuiu para modernizar, coloquializando-a com o mais puro e delicioso calão americano. Utilizou esse calão prolificamente e com revolucionário talento e jogou com grande originalidade com a reprodução do diálogo tal como é falado, com todas as nuances quotidianas e as sonoridades peculiares e características do uso descuidado e distraído - que é como as pessoas, todos nós, falamos-, obtendo com isso espetaculares efeitos.
   O resultado final é uma galeria de personagens nervosas, complexas, contraditórias, instáveis, monomaníacas e meio-loucas, inquietas e perdidas, em si, no mundo, em parte incerta. Algumas procuram consolo no misticismo, outras na austera renúncia e na misantropia e outras ainda na perdição do turbilhão de um mundo que não compreendem mas que anseiam por experienciar até ao desgaste, ao excesso, à violência do esquecimento de si. E enquanto fazem tudo isto - sempre ansiosas, sempre em busca de um estímulo, de alguma nova sensação, de alguma resposta - lá vão elas dialogando, berrando, praguejando...mas sempre com um engenho, um acerto e um tacto que é um gosto, um triunfo! A gramática não escrita da coloquialidade literária é deleitosamente adulterada, o velho código do embelezamento e da transposição elegante da vida para a arte, destruído e reconstruído. Velhos modismos estilhaçados, superados, obsoletos e novas possibilidades inventadas, aplicadas  e ampliadas. E que bem que tudo resulta! Goddam it!
   É bem verdade que Salinger já estava, em certo sentido, morto. Artisticamente, isto é. Nada escrevia desde 1965 e parace ter sido durante toda a vida o espelho das complexidades e desrazões que compôs nas suas personagens. Refugiou-se na sua solidão misantrópica e num silêncio de mais de quatro décadas. «Há uma paz maravilhosa quando não se publica. É pacífico.», afirmou numa entrevista telefónica em 1974. O seu refúgio de New Hampshire, mais ou menos ao estilo de Herculano, foi uma renúncia significativa ao apelo das massas e um repúdio dos traços populistas de uma época de ídolos, que Salinger nunca quis ser.
    Mas se a sua reclusão mediática pode ter esta leitura, já o seu silêncio criativo foi, à moda de Sibelius, enigmático, mesmo inexplicável.  No apogeu das suas faculdades criativas, a sua abrupta retirada de cena, à maneira de Bobby Fischer, teve os laivos de um desgosto, os sabores de uma amargura.
     E é por isso também que o dia de hoje é mais triste. Pelo irremediável do silêncio, pela irreversibilidade do momento, pelo irredimível da recusa. A última página da vida Salinger volta-se assim desse modo inesperado e ironicamente trágico, salingeriano, de um romance cujo desenlace longamente aguardado, pressentido, necessário... se perde para sempre na imensidão dos tempos sem tempo, para sempre levado para um outro lado da vida, onde talvez ainda se esteja escrevendo. Como se o escritor ainda nos pudesse de alguma forma dizer, como Zooey à sua irmã Franny, no final de Zooey: «O.K, I'll be right back. Don't move», e nós, como ela espectantes, continuássemos falando, à espera de sermos ouvidos enquanto falamos, ou ouvindo-nos a nós próprios enquanto lemos das personagens que tanto nos dizem algo muito importante e profundo acerca de nós próprios.
    Mas o mais sensato é fazermos aqui as nossas despedidas, aceitar o inevitável e fechar este livro com a certeza de uma lição aprendida. Ou será que não? A questão impõe-se: poderá Salinger ainda surpreender-nos, à maneira de Pessoa, com uma arca do tesouro? Será que um dos maiores vultos da literatura americana poderia ficar quarenta anos sem escrever absolutamente nada, num silêncio mortal? Ou será que, na lógica do seu espírito de amor ao recato, tinha apenas uma aversão, que aliás chegou a expressar, à exposição que qualquer publicação necessariamente representa? Será que vamos assistir, na hora da sua morte, ao milgare do seu renascimento?
    As especulações são legítimas, mas Salinger já nos ensinou que as esperanças podem ser muito facilmente defraudadas.
    Mantemos pois as nossas despedidas tristes e comovidas, mas acrescentamos-lhes uma espécie de desejo, um resquício de esperança. Porque  nem sempre agimos como deveríamos ou como seria expectável que agíssemos. Porque sim, porque nos apeteceu, porque nos parece bem. Sem saber porquê. E Salinger também nos ensinou isto.
    Goodbye Mr. Salinger. Hope I'll see ya round.

1O: Mário Coluna, "O Monstro Sagrado"

Caraterísticas: Mário Coluna foi e é uma das grandes glórias do Benfica e do futebol nacional e um jogador que ajudou a marcar uma era no futebol europeu. Recordo que a primeira Taça dos Campeões Europeus conquistada pelo Benfica não teve em Eusébio o seu grande herói, que ainda não chegara ao clube. Esse papel coube a Mário Coluna, que terminou o ano em beleza com um fantástico golo na final contra o Barcelona, que atesta toda a elegância do seu recorte técnico. Era um jogador físicamente poderoso e tecnicamente soberbo, a presença mais marcante e imperiosa do meio campo encarnado. A sua leitura de jogo era brilhante, por ela se pautando todo o desenvolvimento tático ofensivo da equipa, a sua técnica fina, o seu remate fatal.  O seu passe sempre certeiro e o seu jogo sempre inteligente tinham de Beckembauer, avant la lettre,  a elegância (mas não, talvez, a leveza), de Platini a geometria organizadora e de Zidane a paternal majestade. Impunha aos seus companheiros e adversários, em igual medida, admiração e respeito. É, hoje e sempre, o "eterno capitão" do clube das águias. Por todos estes e muitos outros atributos foi, a justíssimo título, eleito pela FIFA em 1999 o 60.º melhor jogador europeu do século XX.

Os anos de ouro: Toda a década de sessenta, o apogeu do Benfica e da Seleção. Incontáveis Campeonatos Nacionais e Taças de Portugal, duas Taças dos Campeões Europeus conquistadas e mais três finais perdidas e um terceiro lugar no Mundial de 1966, triunfos que não foram apenas obra de Eusébio, nem, para o efeito, de Coluna. Mas apesar de o contributo de ambos ser maior, já o crédito nem por isso, e Coluna a continua a ser, com demasiada frequência, injustamente esquecido.
    Já se tem dito que o azar de Eusébio foi ser contemporâneo de Pelé. Direi então que o Pelé de Coluna foi Eusébio, uma espécie de fava no bolo rei da sua glória. Mas foi também de brinde: a dupla que formaram fez história e ficará para a história.

 Momento de ouro: O golo da final da Taça dos Campeões Europeus de 1961 contra o Barcelona, corria o minuto 55. Em estilo Zidane, Coluna, à entrada da área, remata de primeira para o fundo das redes, com graciosidade magistral e inacreditável pontaria, após um ressalto que vinha pelo ar. Inesquecível. O resumo do jogo está, com efeitos especiais e banda sonora, aqui; e, mais sobriamente, à inglesa, pela ESPN Classics, aqui (no primeiro vídeo porém, o golo é mais visível). O golo está em destaque (com um ângulo novo), neste vídeo, a partir dos 4:30 minutos.

Porque não ganhou:  Era um jogador discreto, de meio-campo e não um avançado espetacular de encher o olho. Não obstante, poderia ter sido coroado em 1961 ou 62. Se no primeiro ano, o vencedor foi o argentino Omar Sívori, uma das glórias da Juventus, que tem o indiscutível mérito de ter, senão trazido, pelo menos popularizado o túnel (na gíria, a cueca) para o reportório de fintas de futebol; já em 1962 o checoslovaco Josef Masopust, actuando no Dukla de Praga, não parece ter deixado, com o tempo, grande nome ou razões que justifiquem o seu triunfo.

Técnica individual: 18
Leitura tática: 19
Finalização e decisão: 17
Liderança e entrega: 19
Poderio físico: 9
Velocidade: 6

TOTAL: 88