Imagem: E o Dourado dos Seus Corpos, Paul Gauguin, 1901


«O valor da arte, como o da Via Mística, está nos seus efeitos. Se apenas dá prazer, por mais espiritual que o prazer seja, isso não tem grandes consequências, pelo menos maiores consequências que uma dúzia de ostras e uma garrafa de Montrachet. Se é uma consolação, ainda está bem; o Mundo está cheio de males inevitáveis e é bom que o homem disponha de algum retiro onde possa isolar-se de vez em quando; mas não para escapar-lhes, e antes para reunir novas forças a fim de os enfrentar. Porque a arte, se tem de ser considerada como um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade. O valor da arte não é a beleza, mas a acção justa.»


«Exame de Consciência», William Somerset Maugham.


quarta-feira, 10 de Março de 2010

Óscares 2010

E os Estrumpfes...




... não ganharam!
Ainda há esperança para Hollywood.

terça-feira, 9 de Março de 2010

Mudar

    Calma rapaziada: o artigo que leva este título não é, não será nunca, nem poderia alguma vez jamais ser uma referência elogiosa a Passos Coelho. Caridade sim, mas devagar, já dizia Álvaro de Campos. Em alguns casos, nunca.
    É um reconhecimento de que o título de A Mão Visível é, ternuras àparte (já me apeguei a ele), pavoroso. Consegue quase estar na mesma liga do lamentável A lagartixa e o jacará, crónica assinada por Pacheco Pereira na Sábado. Além do mais, presta-se a equívocos: sou um liberal moderado, e, portanto, acredito moderadamente na "mão invisível" de Smith. O contrário disto significou, muitas vezes, um controlo ineficiente, atroz e ruinoso das sociedades e dos indivíduos.
    Portanto, elimino este potencial foco de equívocos e de confusões. E de fealdade. Sim, reconheço-o: era um título feio! era um título triste! Tão desarticulado, informe, sem eloquência. Desilegante, babulciante, tímido, frouxo! Enfim, um lapso.
Fiquemo-nos agora com Ensaio de Orquestra. Parece-me justo, parece-me bem.

A Mão Visível em Fevereiro de 2010


 

Golconde, René Magritte, 1953

terça-feira, 16 de Fevereiro de 2010

Uma lição do velho Walt


«Sou vasto, encerro contradições.»

- Walt Whitman, Folhas de Erva.



A Culpa é da Netcabo!


    É mesmo. Duas semanas sem internet, duas semanas sem A Mão Visível, duas semanas enfim, apartado desse belo e vasto mundo do saber e do ócio cibernéticos.
    Ao leitor as minhas mais sinceras desculpas.
    A Mão Visível ressurge da apagada e vil tristeza da invisibilidade a que foi temporariamente votada, esperando sempre, desesperando às vezes, para a visibilidade que lhe é de direito e de nome... pelo menos enquanto os tipos da netcabo, quais censores do facho sagrado da liberdade de expressão, assim o permitirem.
    Ó meu Portugal tristonho e modesto! Ó infeliz margem onde habito, margem sul esquecida, escarnecida e desamparada! Haja uma empresa que funcione, um contrato que se cumpra, uma competência que se não negue, e pode ser que as coisas, mais ou menos boas, mais ou menos inúteis, mais ou menos genuínas, se desenvolvam, realizem e prosperem.
    Deixem-nos flanar!
    Deixem-nos cavaquear! 
    Deixem-nos chalassear!
    Deixem-me trabalhar!
    E, sem mais prolegómenos, vamos ao que interessa, que hoje é terça-feira, dia de reflexão profunda e amena laracha. Hoje é dia de dictum.

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Da criatividade e da moral


«A imaginação do Homem é o jardim de Deus. Não deixes que o diabo entre e brinque nele.»

- Do filme Nove, em cartaz.



segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Poema das Sete Faces


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade.